quarta-feira, 18 de abril de 2012

Gabito

Hoje comecei a ler o livro "cem anos de solidão" de Gabriel Garcia Marquez e tenho a pesada impressão (para não dizer leve ou ligeira, que isso pra mim soa como algo bem superficial) de que serei tocada por esse autor. 

   Na edição que estou lendo, a história mesmo só começa a partir da página 40. O livro inicia com o discurso do escritor quando foi receber o prêmio Nobel de literatura; na sequência o tradutor fala sobre o Gabo (o escritor que ele não conhecia), o Garcia Marquez (aquele que o mundo conhece), e Gabito (como os colombianos costumam chamar) , sem contradições, nem julgamentos, vou tendo a visão do homem que se materializou igual a qualquer ser comum, mas que se imortalizou pela palavra - e que palavras - como todos os grandes escritores.
   Vejo como nasce uma estrela, na maneira recôndita que Gabito tem de se mostrar enquanto gente, no modo como é explosivo em sentimento, sem talvez nem perceber, ou mesmo querer. Encontro-me nas curvas de sua história, dessa história que o tradutor relata suscintamente, apontando o homem que se esquiva dos holofotes, da miséria da fama, que busca a vida que se perde quando todos os olhares o seguem. Este homem que estima o entrelaçamento entre três temas, cujo  enlace parece impossível e ao mesmo tempo é tão natural : O amor, o poder e a solidão...
   Amante da leitura do mundo, patriota, político, escritor e amigo, são características que atribuo ao meu já querido Gabito. Sobretudo o amigo. Vejam o quanto ele esperto ao dizer que para ele a lei fundamental que rege o universo é que " de uma lado estamos eu e meus amigos; de outro, o resto do mundo, com o qual meu contato é pouco". Eu chego a querer questionar esse pensamento, mas logo sou resgatada de volta à revelação: de que nenhum universo existe para além da amizade, das pessoas que constituem nosso mundo. Sendo assim, não existe outro mundo ou se existir, contato nenhum se faz necessário. Acredito que nem consideramos a existência desse lugar.
   Ele crê em fantasmas!! Parece, mas para mim nem é assustador, por que nessa crença ele também busca admitir sua existencia humana - tem medo de dormir sozinho em casa. Embora sejam fantasmas amigos, pois o fazem querer estar sempre com sua Mercedes, sua mulher, a quem cabia lhe proteger "contra todos os fantasmas e medos da vida"
   O "Cem anos de solidão" não poderia entrar na minha vida, antes de me permitir conhecer esse escritor pelas portas de uma apresentação que foi sintetizada em seu discurso, e sua a defesa contra o reconhecimento supérfluo, fluido, e seu amor pela poesia. Desse jeito vi nascer uma estrela, uma estrela solitária porque ama a solidão. E atrevo-me a chamá-lo de Gabito, porque desejo ser sua conterrânea, de um modo que vai além da questão territorial.

sábado, 26 de novembro de 2011

‎"...e talvez alguma coisa nela sugerisse aos outros a palavra 'adeus'..."














...porque no fundo só estava tentando esconder o que realmente sentia, mas sentada diante do nada, ela chorou...no silencioso vazio da noite ela lamentou os desenlaces e os enganos já vividos, seus erros contra si mesma. Percebeu que numa encruzilhada jamais optou pela estrada correta, nunca sorriu pra um sonho. Estava prestes a descobrir que não vivia, apenas passava os dias, ao passo que tentava sempre dizer para o mundo que a felicidade existe, e o amor existe, e a esperança existe, e a paz...e não era pra ela mesma que estava dizendo, tentado se convencer que a dor não a tocava? No fundo ela desejava acreditar, desfazer as frustrações, refazer os caminhos perdidos. só que naquela noite, sozinha sem nem mesmo se ver ela sentiu frio e este lhe lembrara que não só estava só como sempre esteve, de como sempre sentiu frio. A sensação de estar longe, cada vez mais, do seu lugar, da sua casa, do seu lar...sim, voltar era o grande desejo do seu coração, contudo precisava descobrir pra onde. será que esse lugar existia? será que para lá ela seguia?...esperamos

domingo, 14 de novembro de 2010

Despedida

“A vida passa, os anos passam, deixamos marcas e lembranças para trás a única coisa que fica é a saudade e tudo passa” um amigo um dia me escreveu isso e de alguma forma essa frase se imortalizou em mim, sem esforço ela sempre está vindo à tona, talvez por sua verdade.

Estamos passando pela difícil dor da despedida imposta pela morte. Separados por esse mistério que todos nós sabemos, mas não aprendemos a aceitar, ou como disse Morrie em A ULTIMA GRANDE LIÇÃO - a gente sabe que vai morrer um dia, mas ninguém acredita. É a saudade, é incerteza de um novo encontro, é a dificuldade de lidar com essa nossa limitação humana que só revela nossa impotência. Não podemos alterar esse destino.

A morte nos surpreende mesmo quando dá sinais. Ontem minha avó foi embora e dessa vez não prometeu voltar como ela fazia todos os anos que vinha aqui, em Maceió (lugar que ela amava). Eu não pude me despedir, mas peço que a força do meu sentimento mais profundo de amor a alcance onde ela estiver. Estou tentando resgatar o último dia que a vi e confesso não me lembrar detalhadamente, mas sei que nos despedimos com um abraço e posso garantir que eu pedi a Deus que abençoasse a sua viagem, só não imaginei que seria pra sempre.

Minha maior vontade nesse exato momento era poder acolher a todos com um abraço, acolher, inclusive a mim mesma. Impossível saber definir o que se passa. A saudade pesa, mas o céu nos favorece. E é lá que eu vou guardar minhas lembranças da vovó sorrindo, dançando, me chamando de Daysinha... “No céu está guardado tudo aquilo que a memória amou” (Rubem Alves)

Se eu tivesse tido a chance de me despedir, não saberia o que dizer, não estaria preparada para isso. Nunca estamos.

Nem sei o que pedir só desejo amor, que a tudo suporta.

...Antes a vovó estava distante de mim, lá no Rio...agora eu sei que ela está mais perto.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

THE END


Interessante como as crianças podem compreender melhor as coisas mesmo quando estão equivocadas. Nesse momento eu me recordo que há muitos anos estava eu conversando com um amigo e ele me contava sobre um hilário episódio ocorrido em sua casa: ele disputava o controle da televisão com uma criança, sua prima, que estava assistindo desenho e ela prometeu entregar a "força" quando acabasse...finalmente o desenho acabou e meu amigo todo ouriçado bradou: olha terminou!! e a menina: não! e ele insistiu: terminou sim. Está aparecendo THE END e então veio o golpe de mestre da menina: Não...THE END quer dizer TEM AINDA! Não sei porque me lembrei dessa história agora, mas sei que a partir desse momento não considerarei os the ends como o fim. Estou certa de que na vida nada se encerra, mesmo quando por necessidade queremos concluir. Nós adultos temos a péssima estratégia de querer ver os finais, os ciclos fechados, na tola perspectiva de controlar as estradas. E quem garante que THE END não quer dizer TEM AINDA? e quem tem a certeza que o fim não pode ter continuidade? ...e não me refiro a morte, nem a vida póstuma, falo dos momentos, dos instantes, dos acasos, dos encontros, dos desencontros, das estações. Tudo é infinito e beleza. Até a rotina, as coisas repetidas são contínuas. Vou continuar, você também vai. E um dia em nossa continuidade constante, pode ser quer haja um doce reencontro...sem final.


TEM AINDA!

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Depois de ter vivido o óbvio e o utópico


Não é sempre que se volta ao terreno estado de um sonho que não aconteceu. A única grande maravilha do cotidiano retorna. A respiração minuciosa, a apreensão de detalhes numa manhã de quinta-feira. Entre pessoas e livros numa descoberta quase secreta de que a vida, mesmo inalcansável, pode ser sentida! Volto normalidade dos dias de verão...com sol, após você existir!

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

O amor impossível é o verdadeiro amor

Outro dia escrevi um artigo sobre o amor. Depois, escrevi outro sobre sexo.

Os dois artigos mexeram com a cabeça de pessoas que encontro na rua e que me agarram, dizendo: "Mas... afinal, o que é o amor?" E esperam, de olho muito aberto, uma resposta "profunda". Sei apenas que há um amor mais comum, do dia-a-dia, que é nosso velho conhecido, um amor datado, um amor que muda com as décadas, o amor prático que rege o "eu te amo" ou "não te amo". Eu, branco, classe média, brasileiro, já vi esse amor mudar muito. Quando eu era jovem, nos anos 60/70, o amor era um desejo romântico, um sonho político, contra o sistema, amor da liberdade, a busca de um "desregramento dos sentidos". Depois, nos anos 80/90 foi ficando um amor de consumo, um amor de mercado, uma progressiva apropriação indébita do "outro". O ritmo do tempo acelerou o amor, o dinheiro contabilizou o amor, matando seu mistério impalpável. Hoje, temos controle, sabemos por que "amamos", temos medo de nos perder no amor e fracassar na produção. A cultura americana está criando um "desencantamento" insuportável na vida social. O amor é a recusa desse desencanto. O amor quer o encantamento que os bichos têm, naturalmente.
Por isso, permitam-me hoje ser um falso "profundo" (tratar só de política me mata...) e falar de outro amor, mais metafísico, mais seminal, que transcende as décadas, as modas. Esse amor é como uma demanda da natureza ou, melhor, do nosso exílio da natureza. É um amor quase como um órgão físico que foi perdido. Como escreveu o Ferreira Gullar outro dia, num genial poema publicado sobre a cor azul, que explica indiretamente o que tento falar: o amor é algo "feito um lampejo que surgiu no mundo/ essa cor/ essa mancha/ que a mim chegou/ de detrás de dezenas de milhares de manhãs/ e noites estreladas/ como um puído aceno humano/ mancha azul que carrego comigo como carrego meus cabelos ou uma lesão oculta onde ninguém sabe".

Pois, senhores, esse amor existe dentro de nós como uma fome quase que "celular". Não nasce nem morre das "condições históricas"; é um amor que está entranhado no DNA, no fundo da matéria. É uma pulsão inevitável, quase uma "lesão oculta" dos seres expulsos da natureza. Nós somos o único bicho "de fora", estrangeiro. Os bichos têm esse amor, mas nem sabem.

(Estou sendo "filosófico", mas... tudo bem... não perguntaram?) Esse amor bate em nós como os frêmitos primordiais das células do corpo e como as fusões nucleares das galáxias; esse amor cria em nós a sensação do Ser, que só é perceptível nos breves instantes em que entramos em compasso com o universo. Nosso amor é uma reprodução ampliada da cópula entre o espermatozóide e óvulo se interpenetrando. Por obra do amor, saímos do ventre e queremos voltar, queremos uma "reintegração de posse" de nossa origem celular, indo até a dança primitiva das moléculas. Somos grandes células que querem se re-unir, separados pelo sexo, que as dividiu. ("Sexo" vem de "secare" em latim: separar, cortar.) O amor cria momentos em que temos a sensação de que a "máquina do mundo" ou a máquina da vida se explica, em que tudo parece parar num arrepio, como uma lembrança remota. Como disse Artaud, o louco, sobre a arte (ou o amor) : "A arte não é a imitação da vida. A vida é que é a imitação de algo transcendental com que a arte nos põe em contato." E a arte não é a linguagem do amor? E não falo aqui dos grandes momentos de paixão, dos grandes orgasmos, dos grande beijos - eles podem ser enganosos. Falo de brevíssimos instantes de felicidade sem motivo, de um mistério que subitamente parece revelado. Há, nesse amor, uma clara geometria entre o sentimento e a paisagem, como na poesia de Francis Ponge, quando o cabelo da amada se liga aos pinheiros da floresta ou quando o seu brilho ruivo se une com o sol entre os ramos das árvores ou entre as tranças da mulher amada e tudo parece decifrado. Mas, não se decifra nunca, como a poesia. Como disse alguém: a poesia é um desejo de retorno a uma língua primitiva. O amor também. Melhor dizendo: o amor é essa tentativa de atingir o impossível, se bem que o "impossível" é indesejado hoje em dia; só queremos o controlado, o lógico. O amor anda transgênico, geneticamente modificado, fast love.

Escrevi outro dia que "o amor vive da incompletude e esse vazio justifica a poesia da entrega. Ser impossível é sua grande beleza. Claro que o amor é também feito de egoísmos, de narcisismos mas, ainda assim, ele busca uma grandeza - mesmo no crime de amor há um terrível sonho de plenitude. Amar exige coragem e hoje somos todos covardes".

Mas, o fundo e inexplicável amor acontece quando você "cessa", por brevíssimos instantes. A possessividade cessa e, por segundos, ela fica compassiva. Deixamos o amado ser o que é e o outro é contemplado em sua total solidão. Vemos um gesto frágil, um cabelo molhado, um rosto dormindo, e isso desperta em nós uma espécie de "compaixão" pelo nosso desamparo.

Esperamos do amor essa sensação de eternidade. Queremos nos enganar e achar que haverá juventude para sempre, queremos que haja sentido para a vida, que o mistério da "falha" humana se revele, queremos esquecer, melhor, queremos "não-saber" que vamos morrer, como só os animais não sabem. O amor é uma ilusão sem a qual não podemos viver. Como os relâmpagos, o amor nos liga entre a Terra e o céu. Mas, como souberam os grandes poetas como Cabral e Donne, a plenitude do amor não nos faz virar "anjos", não. O amor não é da ordem do céu, do espírito. O amor é uma demanda da terra, é o profundo desejo de vivermos sem linguagem, sem fala, como os animais em sua paz absoluta. Queremos atingir esse "absoluto", que está na calma felicidade dos animais.

Arnaldo Jabor

Silêncio

...pensei ter encontrado, agradeci a Deus, aos céus por ter te feito cruzar meu caminho e nenhuma preocupação me abatia. Todas as rusgas estavam sumindo, meu sorriso com certeza era mais sincero...eu acreditei, mas a minha velha e desorganizada forma de entender ,de prever o meu mundo mais uma vez se enganou. Estou com o coração destroçado, não consigo juntar os pedacinhos e alheio a tudo isso preciso me recompor porque preciso dar ao mundo o que eu não tenho...não sei quando vou novamente sentir que será possível...meu coração voltou ao seu silêncio